quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Tudo que você sempre quis saber sobre cadeirantes, ...

... mas tinha medo de perguntar!
Existem certas perguntinhas que todo cadeirante ou seu parceiro costumam ouvir freqüentemente. Achei que seria interessante e talvez até divertido, além de esclarecedor, listar algumas delas aqui, com suas devidas respostas. Vamos lá!

• A cadeira do seu namorado é motorizada?

Essa é uma das primeiras perguntas que escuto quando digo que meu namorado é cadeirante. Acho que eu mesma pensava que cadeiras motorizadas deveriam ser as melhores e mais práticas. Mas como explicamos nesse post aqui, o uso dessas cadeiras é indicado para alguns casos e para outros não.

• Ele é independente?

Importante aqui é definirmos o conceito de independência. Muitos cadeirantes precisam de ajuda para algumas tarefas do dia a dia, mas isso não significa que eles não sejam independentes. Ser independente é ter personalidade e vontade própria. A pessoa pode até precisar de ajuda para resolver uma ou outra tarefa, mas se é ela que toma as decisões sobre sua vida, sim, ela é independente. Da mesma forma, conhecemos uma porção de pessoas que andam e não conseguem comprar pão na esquina sozinhas. Essas são muito mais dependentes do que a maioria dos cadeirantes.

• Ele dirige?

Sim, e muitos cadeirantes podem dirigir. Depende do tipo de deficiência que a pessoa possui. Quando ela tem mobilidade suficiente para isso, basta que o carro seja adaptado. Ao invés de usar os pedais para freio, aceleração e embreagem, é tudo feito com as mãos. Aliás, ironicamente, é mais fácil um cadeirante dirigir no Rio do que pegar um ônibus...

• Cadeirantes costumam sair?

Entendam, cadeirante não é sinônimo de eremita. Pessoas com deficiência saem, se divertem, vivem. Poderiam até sair mais, se os espaços urbanos e estabelecimentos, sem falar dos transportes públicos, fossem adaptados. Aliás, um dos objetivos do nosso blog é incentivar pessoas com deficiência a saírem de suas casas. Botarem suas caras na rua e, quando encontrarem algum espaço que privilegia a acessibilidade, divulgarem-no.

• Os cadeirantes dançam?

Bom, eu acho que isso depende do gosto de cada um. Tem muita gente, cadeirante ou não, que não gosta de dançar, não é mesmo? Mas se a pessoa gosta, sim, ela dança. Qual é o problema? Existem até grupos de dança de cadeirantes. Aliás, uma boa história sobre um cadeirante e uma pista de dança, você lê aqui.

• Seu namorado cadeirante trabalha?

Sim, ele trabalha. Ele e mais um monte de outros cadeirantes. Aliás, não vejo porque o fato de ele não conseguir andar possa fazer dele uma pessoa incapaz de trabalhar. Acredito que teríamos muito mais pessoas com deficiência trabalhando se os preconceitos em relação a elas diminuíssem e se a acessibilidade dos transportes e empresas melhorasse. Mas aguardem que em breve escreveremos sobre esse tema com mais detalhes.

• Como os cadeirantes fazem para viajar de avião?

Cada vez mais reclamamos dos espaços apertados nos aviões comerciais. Aquele corredorzinho mínimo, que te obriga a ficar na poltrona caso a aeromoça esteja passando com o carrinho de bebidas e comidas. Imagina então uma cadeira de rodas transitando por ali. Pois é, não dá. O que o cadeirante faz, então? Bem, ele chega até o avião, normalmente na sua cadeirinha de estimação, e torce para que o embarque seja feito por finger (aquele túnel que liga o terminal ao avião) ou exista um elevador para levá-lo do solo até a entrada do avião. Às vezes não há nenhum dos dois e ele tem que ser carregado. Uma vez lá dentro, passa para a cadeira de bordo, que é mais estreita e cabe no corredor. Caso, precise ir ao banheiro, precisa pedir a cadeira de bordo ao comissariado. Sim, em viagens longas é bem chatinho...

• E como eles sobem escadas?

Sozinhos eles não sobem, precisam ser carregados. Já existem algumas cadeiras especiais que sobem e descem escadas, mas ainda são muito caras às vezes pouco práticas. Além disso, convenhamos que cadeira de rodas e escada não combinam, né? Há grande risco de acidentes e por isso fazemos campanhas por mais e mais elevadores e rampas!

Por último, não poderíamos deixar de fora a pergunta que todos gostariam de fazer, mas poucos têm coragem de perguntar (confesso que nem tão poucos assim. Já ouvi essa pergunta de tanta gente com a qual não tinha a menor intimidade. Vocês nem imaginam!):

• Cadeirantes fazem sexo?

SIM! Cadeirantes são pessoas com hormônios e necessidades iguais a quaisquer outras. Fazem sexo, sim senhor! Só não vamos entrar em maiores detalhes porque somos pessoas discretas :)

E você? Tem alguma outra pergunta que escuta com freqüência?

Por Bianca Marotta

Sexo é vida!

A pedagoga Gisela Bordwell aborda fatos interessantes nesta vivência sexual. Para Gisela, que pesquisou bastante sobre o assunto, o principal limitador da sexualidade do lesado medular é o preconceito, próprio e de quem rodeia. E destaca o envolvimento emocional e as fantasias sexuais como grandes aliados na satisfação da libido.

“(…) A criatividade sexual bem explorada é sempre bem-vinda, proporcionando o prazer da proximidade dos corpos, cheiro de suor, toque da pele e a imaginação de união num grau máximo. É a sensação de duas pessoas serem uma só, mesmo que seja num nível imaginário. Fantasias podem e devem ser usadas como meios de sedução, porém não se deve construir uma relação baseada apenas em fantasias. Essa postura seria como construir uma casa sem nenhum alicerce, ou seja, a destruição é certa. Deve sempre ficar muito claro para o casal o que se espera daquela relação para não haver sofrimentos. Todos esses detalhes bem explorados são fortes artimanhas para uma relação saudável quando acompanhados de propósitos bem definidos.
Estes pequenos truques, quando acompanhados por trocas de palavras que agradam ao coração, palavras de carinho, conforto e apoio moral levam a uma relação completa. O mesmo ocorre quando, através um olhar de aceitação plena entre duas pessoas que se sintam completamente envolvidas emocionalmente na relação por algum charme especial. Também quando a pessoa sente intuitivamente que seu companheiro está se aproximando sem ser avisada. Ou ainda, quando uma delas tem o pressentimento de que o outro está em perigo ou está muito feliz. Tudo isso é resultado de uma cumplicidade muito grande quase sem explicação. Como uma entrega total entre o casal. Algo, por que não dizer, divino, possível de acontecer. (…)” Gisela Bordwell

A realidade sexual do portador de lesão medular

Sei que o universo da deficiência física é muito mais amplo que a lesão medular, mas preferi comentar sobre essa deficiência já que trata-se de algo, infelizmente, comum em nossa sociedade atual. Em tempos de balas perdidas e acidentes de trânsito indiscriminados, a re-socialização do cadeirante a níveis sociais, psicológicos e sexuais, tem que ser discutidas à exaustão para sensibilizar sociedade e as autoridades.
Uma pesquisa feita entre portadores de lesão medular, mostrou que 60% das mulheres e 50% dos homens, não tinham vida sexual após a lesão. E este desinteresse devia-se à própria condição física de estar em uma cadeira de rodas. Aspectos físicos e motores comprometiam a auto estima e também o vilão maior: o descontrole esfincteriano.
O medo da possibilidade de eliminar urina ou evacuar durante o ato sexual, trancafia o portador em um celibato voluntário. E para reverter este pensamento, o mais indicado é a terapia sexual. Uma orientação sobre o físico e o psicológico. A princípio, a troca de informações e experiências entre os portadores é fundamental para a aceitação e entendimento. Em um segundo momento, o portador é encaminhado a um urologista que apresenta a realidade médica e possibilidades terapêuticas.
Indico a leitura do livro Revolução Sexual Sobre Rodas, de Fabiano Puhlmann, psicoterapeuta especializado em deficiência física.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Talão de Multa Moral pretende educar motoristas infratores

A campanha pretende orientar os motoristas, por meio da multa fictícia, deixada no pára brisas dos carros estacionados indevidamente em vagas reservadas às pessoas com deficiência em shoppings, hipermercados e demais estabelecimentos comerciais.
A Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida produziu talões de Multa Moral, com o objetivo de educar e orientar as pessoas que não respeitam as vagas de estacionamentos reservadas às pessoas com deficiência e mobilidade reduzida.
A campanha pretende orientar os motoristas, por meio da multa fictícia, deixada no pára brisas dos carros estacionados indevidamente em vagas reservadas às pessoas com deficiência em shoppings, hipermercados e demais estabelecimentos comerciais.
Além de alertar que o condutor do veículo está numa vaga exclusiva, a Multa Moral lembra o infrator que os habituais “cinco minutinhos” ocupando a vaga podem acarretar diversos transtornos a quem realmente tem direito de utilizá-la.
O Decreto Federal 5.296/2001 determina a reserva permanente de no mínimo 2% da totalidade das vagas dos estacionamentos, para uso exclusivo de veículos de pessoas que tenham dificuldade de locomoção, devidamente sinalizadas.
Os interessados em participar da campanha educativa podem retirar os talões de Multa Moral na Praça de Atendimento da Subprefeitura do Jabaquara, na avenida Engenheiro Armando de Arruda Pereira, 2.314. Também está disponível para retirada exemplares do manual “Dicas de Relacionamento com Pessoas com Deficiência”.


Essa ideia é legal e seria muito benvinda em Mato Grosso do Sul. Vamos solicitar ao prefeito de Campo Grande para fazermos um teste. Obtendo resultados positivos, estenderemos para todo o Estado.

A Capital dos nossos sonhos


A capital dos nossos sonhos é aquela que permite ao cidadão PRODUTIVO, ainda que em uma cadeira de rodas, poder acordar cedo, ir trabalhar e voltar no fim do dia com a
sensação do dever cumprido, por saber que garantiu o sustento de sua família, e com sua auto-estima elevada, por estar cumprindo seu papel de provedor.
A capital dos nossos sonhos é aquela que tem escadas, mas também não se esquece de que rampas são necessárias, para que a liberdade constitucional de ir e vir seja preservada... tem elevadores, pois mesmo em uma cadeira de rodas, os cidadãos PRODUTIVOS merecem ocupar seus postos nos lugares mais altos das edificações.
Essa é a capital que buscamos com todas as nossas forças e empenho por acreditar que se lutamos sem desistir, os sonhos se tornam realidade.
A poucos dias relembrei com uma amigo uma frase que diz que “as águias não sobem escadas, elas voam.”
Na Capital dos meus sonhos, as gaiolas serão abertas para que as águias alcem seus vôos e possam exercer com plenitude sua função de águia... e seremos Campograndenses orgulhosos por a "Capital dos nossos sonhos" ter se tornado uma doce realidade!!

(escrito como uma declaração de amor à capital do Mato Grosso do Sul, onde vivo a 32 anos, dos quais, 22 como cadeirante)

Fonte: Escrito por Binho

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

ÚLCERA DE PRESSÃO (ESCARAS)

Perebinhas e perebonas


“Zimininos”, quem é lascado pela guerra e fica “malacabado” das pernas ou mesmo quem contrai um “dodói” (tô mona hoje, né? ) e precisa ficar acamado por muito tempo tá sujeito a uma perebinha danada comumente chamada de “escara”, mas cujo nome de “verdadchi” é úlcera de pressão.
O lance funciona assim: como o sujeito fica mais parado do que “zóio de santo” o bumbum (oia que chique), sobretudo, fica exposto, devido à ausência de movimento, a criar uma perebinha que, sem cuidados imediatos, pode se transformar numa perebona, num transtorno sem fim.
Quem vai explicar pra tudo mundo isso é Gisele Azevedo, que é mais conhecida neste blog do que nota de R$ 1... . Para quem não sabe, ela é especialista justamente em terapias para sarar os problemas fisiológicos que os lesados normalmente adquirem. A Gi também é professora universitária, com doutorado, ou seja, num sabe de quase nada...
Faço questão que todo mundo conheça mais sobre as tais “úlceras” porque o tema é muito desconhecido, apesar de ser bem comum. Com mais informações para todo mundo, acho que menos os cadeirantes vão sofrer com os machucados, porque poderão ser alertados dos riscos, e mais gente vai conseguir se livrar do problema, se cuidando direitinho!

A coisa começa assim: quando a gente tem a sensibilidade normal, mudamos de posição constantemente, sem que nos demos conta. Fazemos isso no piloto automático, descruzando pernas, levantando uma banda da bunda da cadeira, chacoalhando as pernas, e por aí vai.
Com a sensibilidade tátil alterada, como acontece em várias deficiências, essa percepção para mudar de posição não acontece, e a pessoa fica horas/dias/meses do mesmo jeito, se alguém não auxiliar na mudança, para aqueles que também têm a mobilidade prejudicada. Se isso acontecer, os pequenos vasos (artérias e veias) ficam comprimidos entre as saliências ósseas e a cama, deixando de levar sangue aos tecidos. Isso ocasiona a morte das células.
Tecido morto para o nosso corpo é coisa estranha, ele só reconhece coisas vivas e daí o negócio é botar para fora. Está iniciada a úlcera por pressão, que recebe esse nome justamente para que se lembre a sua origem. Antigamente chamava-se escara, hoje o nome mudou.
Começa sempre com uma vermelhidão que não desaparece quando se comprime levemente a pele, esse é o Estágio 1. Pode botar fé que aí a pele já morreu, abrir tudo é só uma questão de tempo.
Estágio 2 é quando tem perda de tecido de pequena profundidade, atingindo somente as camadas superiores da pele. No Estágio 3. Há o comprometimento de toda a pele e, no 4 há perda de músculos e pode chegar aos ossos.
Ou seja, o cabra chega ao pronto socorro todo estropiado, a equipe vai cuidando de fazer diagnóstico, radiografias, tomografia, imobilização, cirurgia, curativos, medicamentos, estabilizar o caboclo e todo mundo deixa ele bem quietinho, sem mexer. Quando passa o furacão, se aparecer uma alma sensível e competente, vão começar a mudar de posição na cama e... surpresa!!! Tem uma baita feridona na bunda do cidadão. Simples assim.
Vamos tratar? Prá começar, mudar de posição a cada duas horas, religiosamente. Isso quer dizer virar para um lado e ficar duas horas. Depois, virar para o outro, mais duas. Depois, de bruços, outras duas horas. E de costas, mais duas horas.
Ou seja, somente a cada 8 horas vai haver pressão na mesma área novamente. Se estiver sentado na cadeira de rodas, tem que fazer a “descompressão isquiática”, ou push-up: a cada 30 minutos, levantar o corpo sustentando-o nos braços, pelo máximo tempo que conseguir.
Sem isso, pode baixar “gzuis” que a ferida num fecha, pois faltará o principal: estradas livres para chegar nutrientes nas células. Segunda coisa: alimentação rica em proteínas e vitaminas, com suporte profissional. Caso contrário, não haverá nutrientes suficientes para criar pele onde precisa ser cicatrizado. E pode comer de tudo, nenhum alimento é proibido por causar feridas, pelamordedeus!!!!!

Prá finalizar, sugiro a contribuição de um profissional enfermeiro com conhecimento especializado em feridas, o estomaterapeuta (uma lesada que nem eu, craro ), para avaliar o cidadão e a lesão e indicar a melhor cobertura a ser colocada ali, além da limpeza adequada.
Não dá prá chutar nem botar qualquer coisa, pois isso pode atrapalhar tudo. E jamais deixar aberto, botar prá tomar sol, utilizar produtos caseiros, ervas e “quetais”. Ah, e o sujeito tem que estar sempre sequinho, limpo, sem “totô” ou “xixi”, senão vira um caos.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Juju também é cultura

No momento, estamos produzindo um programa sobre termos adequados para se referir às pessoas com deficiência. Todo mundo sabe que não é legal chamar uma pessoa que usa cadeira de rodas de aleijado, a não ser claro, de mútuo acordo, que é uma piada. Como é o caso do nome deste blog. Mas, sério, acho importante deixar claro que a piada só vale a pena quando o objeto da piada também acha graça. Tipo, tem muito cadeirante que não curte ser chamado de aleijado, mesmo que de brincadeira. Ai, vai da auto-estima de cada um, né?
Mas, voltando aos termos. Anota ai: aleijado hoje é pessoa com deficiência. Esqueçam pessoa portadora de deficiência (porque ninguém porta sua deficiência, eu porto uma caneta, minha identidade, mas, infelizmente não porto minha deficiência, seria bom né? Hoje tem festa e por isso não vou portar minhas sequelas neurológicas na medula!) Também não se fala mais portador de necessidades especiais. Necessidades especiais todos temos! Eu por exemplo, estou com uma necessidade especial decorrente da falta de sexo. Também não é um adjetivo adequado chamar de especial quem tem uma deficiência. Todo ser humano é único e por isso mesmo especial. Claro que existe muito projeto de ser humano que deveria queimar no mármore do inferno, mas isso é assunto pra outra hora. Também tem muita pessoa com deficiência que não vale o que come, não é só pq a criatura não enxerga ou não caminha que ela vai ser uma boa pessoa. Além disso, especial tem uma conotação paternalista que deve ser abolida!!!

Escrito por Juliana Carvalho (tetraplégica)